quinta-feira, 15 de março de 2012

[Crítica Social] Mortes e ressurreições da esquerda


MORTES E RESSURREIÇÕES DA ESQUERDA

Há, ao que parece, uma enorme ânsia por declarar a morte da esquerda. As datas do suposto “sepultamento”, sempre renovadas, são muitas. O século XIX, o século XX, o século XXI. As “prováveis” causas da morte são inúmeras: os direitos do trabalhador, o Estado de bem-estar social, o neoliberalismo, a integração da classe trabalhadora pelo consumo, a terceirização e a precarização do trabalho, o desenvolvimento das forças produtivas, o “encolhimento” da indústria em face da “expansão” da economia de serviços etc.

Mas a mesma esquerda incansavelmente declarada morta e sepultada, repetidamente vítima de uma propaganda suspeita que atesta ostensivamente a sua extinção, “renasce” uma vez após a outra, sem cessar. A mesma esquerda que, por tantas razões “deveria” prestar o “favor” de desaparecer, volta do inferno para denunciar a insensatez deste mundo, para dizer o indizível, para expor as raízes mais obscuras da sociedade presente. Volta com toda a força para deixar claro que ainda há contra o que lutar, que ainda há disposição para a luta, que ainda há luta.

A esquerda, na verdade, não morre. Ao menos a perspectiva mais radical da esquerda, porta-voz da crítica mais profunda da sociedade capitalista: esquerda, afinal, não simplesmente o mesmo que “ser do contra”. E esta esquerda mais radical não morre porque está fundamentalmente atrelada a certas condições sociais muito concretas, condições sociais que, uma vez mantidas, mantêm vivas também a sua mais profunda oposição: trata-se de uma perspectiva de classe numa sociedade marcada por uma profunda oposição entre classes sociais.

Ora, por mais que a sociedade capitalista tenha se transformado ao longo do tempo, por mais que tais transformações tenham sido profundas, o seu núcleo mais elementar é, na essência, o mesmo. A submissão do trabalho ao capital, o processo de expropriação da mais-valia, a exploração da classe trabalhadora por uma minoria de detentores do capital permanecem. E assim permanece, ainda que mais ou menos ativa de acordo com as circunstâncias, a perspectiva política correspondente à classe trabalhadora explorada.

Esta perspectiva política encontra a cada momento as suas grandes trincheiras, põe suas forças naquilo que está ao alcance, mas não se cala. Esta perspectiva política permanece sempre viva na medida em que mantém como horizonte final – embora nem sempre claro – a transformação social radical, a superação definitiva da sociedade capitalista, a sua completa ultrapassagem por uma forma social radicalmente outra, diversa, nova.

Enquanto não for vencida esta etapa, nenhum discurso, nenhuma sepultura fictícia, nenhuma causa mortis será suficiente.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 14/03/2012.]

quinta-feira, 8 de março de 2012

[Crítica Social] Psicologia, religião, homofobia


PSICOLOGIA, RELIGIÃO, HOMOFOBIA

Tramita atualmente na Câmara dos Deputados, por iniciativa da “Frente Parlamentar Evangélica”, um projeto de decreto legislativo (nº 234/2011) que visa “sustar” certos dispositivos de uma resolução interna do Conselho Federal de Psicologia que proíbem os psicólogos de oferecer qualquer tipo de “tratamento” ou “cura” para a homossexualidade. Na prática, o que referido projeto pretende é permitir que psicólogos encarem a homossexualidade como uma patologia psíquica, isto é, que encarem o homossexual como um doente, como alguém que precisa de tratamento, como um “paciente” que pode ser devolvido à “normalidade”.

Não é por acaso, contudo, que o Conselho Federal de Psicologia proíbe a redução da homossexualidade à condição de doença. Não há, do ponto de vista clínico, qualquer desvio psíquico ou qualquer aspecto patológico relacionado à orientação homossexual. Não se trata, em nenhum sentido, de uma doença. E esta conclusão é o resultado de pesquisas rigorosas, cujo mérito a ser reconhecido é precisamente o de deixar para trás preconceitos, fobias e idéias distorcidas que nada têm de compatível com o caráter científico da atividade profissional do psicólogo.

É inadmissível que o legislativo brasileiro seja chamado a intervir nesta questão por motivação religiosa e, mais ainda, para promover (à força) um tremendo retrocesso.

Uma religião qualquer pode muito bem considerar a homossexualidade contrária aos seus preceitos. Assim como a religião pôde, séculos atrás, condenar os defensores do heliocentrismo como hereges e pode, ainda hoje, em não raros casos, continuar a negar a evolução espécies, é também prerrogativa sua insistir no caráter “imoral” da homossexualidade a despeito de todas as evidências e de toda a razoabilidade. Mas nenhuma religião pode pretender que esta “censura” se estenda um passo sequer para além dos estritos limites da sua fé.

Entenda-se bem. Não se trata de discutir a possibilidade ou não de participação do homossexual no culto religioso. Não se trata, por outro lado, de obrigar qualquer religião que seja a abrir mão dos seus dogmas. Trata-se de transpor da maneira mais indevida o dogma religioso de alguns em imposição política universal. Ao pretender valer-se da força do Estado, mecanismo supostamente neutro de poder, para impor a todos uma visão baseada tão-somente numa certa fé, os representantes religiosos certamente extrapolam todos os limites. Seria o mesmo que impor o dogma pela força. Seria o mesmo que colocar a lei a serviço da perpetuação da discriminação, usar o poder público para legitimar uma forma grave de preconceito.

O Estado, como poder público, laico, detentor do monopólio legítimo da violência não pode admitir isto. Uma sociedade minimamente consciente das grandes lutas do seu tempo não pode ser conivente com um tal absurdo.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 07/03/2012. DIÁRIO (Dracena-SP), 11/03/2012]

quinta-feira, 1 de março de 2012

[Crítica Social] Carnaval da repressão


CARNAVAL DA REPRESSÃO

À exceção de fofocas de celebridades ou descalabros relacionados às escolas de samba, não se pode esperar que qualquer notícia circule amplamente no Brasil em tempo de carnaval. O país aparentemente mergulha num estado de catarse, o feriado prolongado dispersa pessoas e atenções, a repercussão de qualquer acontecimento “não-carnavelesco”, por mais importante que seja, fica, para dizer o mínimo, seriamente comprometida.

O carnaval é, por isso mesmo, um período “ideal” (do ponto de vista mais perverso) para atrocidades que, em dias ordinários, causariam forte impacto midiático passarem quase “despercebidas”. É um período “ideal” para a pancada, para a barbárie, para o absurdo, sem a conseqüente polêmica, sem controvérsia e sem debate, sem oposição pública.

A direção da Universidade de São Paulo, em sua intrincada aliança com o governo do estado, soube muito bem aproveitar-se desta situação. Praticamente sem repercussão, quase inteiramente às escondidas dos olhos e dos ouvidos do grande público, em pleno domingo de carnaval, a Polícia Militar novamente foi mobilizada para ocupar ostensivamente o campus. O pretexto, desta vez, foi remover 12 estudantes do CRUSP, a moradia que integra o serviço de assistência estudantil da universidade, segundo alegação de que estes ocupavam irregularmente o edifício.

A moradia estudantil, é evidente, serve para atender às necessidades dos estudantes sem condições econômicas de custear a própria habitação. Trata-se, afinal, de uma universidade pública, que deve atender às condições mínimas para que estudantes oriundos de qualquer localidade e de qualquer classe social tenham acesso às suas salas de aula. Isto, sobretudo, num país marcado pela desigualdade social exacerbada, em que uma parcela significativa da população simplesmente não poderia ter acesso à universidade senão por meio de tal assistência.

A ocupação do edifício do CRUSP em questão ocorreu em 2010, como parte de um movimento que exigia ampliação das vagas e melhora das condições (sabidamente precárias) da moradia. Há, de fato, mais alunos que necessitam da assistência da universidade do que vagas. Mas a resposta da USP aos reclamos dos estudantes não é, nem de longe, adequada à dimensão do problema social com a qual a universidade se depara.

A política da universidade não é, em definitivo, a de ampliar e melhorar o serviço de assistência. Não é, em definitivo, uma política de orientação social, voltada ao enfrentamento da situação social brasileira e dos seus reflexos dentro da universidade. A política da universidade é, mais uma vez, inescrupulosa e descaradamente, de violência, de repressão, de pancada. E na surdina, covardemente protegida de todo o escândalo e de todo o potencial de mobilização dos próprios estudantes.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 29/02/2012.]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

[Crítica Social] Polícia, salário, greve

POLÍCIA, SALÁRIO, GREVE

A polícia é um aparelho estatal de repressão e opera, em última instância, em nome da manutenção dos interesses das classes dominantes. A polícia brasileira, em específico, é conhecida por excessos de violência, sobretudo contra minorias e classes sociais dominadas, bem como por uma série de deficiências de treinamento, equipamento e abordagem. Mas é absolutamente certo que os problemas da polícia devem ser reputados à conformação da sociedade presente, à estrutura do Estado, a deficiências de orçamento e interesses políticos nem sempre “declaráveis”, mas não aos policiais.
 
Como quaisquer outros trabalhadores, os policiais vendem a própria força de trabalho porque não têm outra alternativa para obter os meios para a própria subsistência e de suas famílias. Ou seja, como quaisquer outros trabalhadores, os policiais dependem inteiramente dos salários que recebem para sobreviver. E é impossível não reconhecer que os salários dos policiais brasileiros são, em grande medida, absurdamente baixos, indignos mesmo, especialmente se considerados todos os riscos inerentes às atividades que estes desempenham.
 
É bastante razoável, portanto, que os policiais almejem melhores condições de trabalho e busquem remuneração mais digna. É bastante razoável, mais ainda, que os policiais lutem, pelos meios que estiverem ao alcance, como quaisquer outros trabalhadores, por estas suas reivindicações.
 
São muito graves, exatamente por isso, os acontecimentos, a que temos assistido nos últimos dias, decorrentes da tentativa de impedir os movimentos de greve dos policiais e bombeiros da Bahia e do Rio de Janeiro. São muito graves porque visam obstruir reivindicações indiscutivelmente legítimas, porque se opõem à dignidade dos trabalhadores e porque procuram impedir a própria possibilidade da reivindicação por melhores salários.
 
Há, é verdade, uma franca oposição da grande mídia, empenhada em “criminalizar” o movimento. Mas qual o “crime” caracterizado pela exigência por um salário maior do que o irrisório? Qual o crime cometido por um trabalhador que espera melhores condições de trabalho? A prisão dos líderes dos policiais, nesse sentido, apresenta-se como prisão por motivação política, sórdida perseguição de trabalhadores que lutam por melhores condições de vida. A oposição ao movimento dos policiais é repressiva, arbitrária e violenta.
 
Não deixa de ser irônico, de todo modo, que os policiais sofram o mesmo tipo de repressão que outros trabalhadores, quando colocados diante da necessidade da greve, sofrem por parte da própria polícia. Mas a reivindicação dos policiais, como trabalhadores que são, não podem ser consideradas criminosas. Não se pode aceitar que sejam silenciadas à força.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 15/02/2012.]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

[Crítica Social] Dois pesos e duas medidas


DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS

Uma visita da presidente Dilma Rousseff a Cuba e um pedido de visto para visita ao Brasil da blogueira Yoani Sánchez serviram, ao longo da última semana, para todo um “movimento” supostamente pró-democracia por conta da grande mídia brasileira. Censuras sem fim contra a “ditadura” cubana, críticas à postura “complacente” da presidente pela visita e um discurso clichê repetido sem cessar sobre direitos humanos. Mas qual o verdadeiro sentido deste “esforço” midiático tão escancarado?

Criticar a política de Cuba é fácil, principalmente do ponto de vista da esquerda. A revolução cubana nunca pôde avançar, o socialismo cubano nunca pôde se desenvolver por inteiro e, exatamente por isso, Cuba não pode ser um grande exemplo na luta contra a estrutura social presente, em especial para a atuação mais crítica neste sentido. Mas esta, em definitivo, não é a crítica da grande mídia brasileira. O que esta procura fazer, valendo-se inescrupulosamente do monopólio da “interpretação” dos fatos que a caracteriza, é identificar imediatamente a realidade cubana com o conjunto das propostas da esquerda, como um ideal, uma ideologia etc.

Para tanto, a crítica propalada pela grande mídia brasileira utiliza a democracia e os direitos humanos como chavões, mas não está verdadeiramente preocupada com qualquer destes ideais. A sua utilização tem por intuito acusar a esquerda como um todo de ser o seu “inverso”, quer dizer, de ser “ditatorial”, “desumana”, “arbitrária” e tudo mais que se possa encaixar levianamente nas brechas do discurso politicamente interessado e superficial. Esta crítica se coloca claramente sob o prisma da direita: os seus objetivos últimos são a legitimação da ordem estabelecida e a deslegitimação de toda e qualquer postura crítica a esta ordem.

Pode-se bem observar que os mesmos veículos de imprensa que não poupam esforços para atacar a política cubana costumam silenciar a respeito das mazelas da “democracia” e dos “direitos humanos” que afligem outros lugares do planeta. Que alguns dos governos dos países-modelo do ocidente civilizado não tenham sido eleitos pelo voto direto parece de pouca importância. Que os direitos humanos sejam constantemente atacados por parte desses mesmos países também. Os abusos cometidos pelos EUA na suposta “guerra contra o terror” (que incluem invasões no Oriente Médio, tortura, “ataques preventivos” e a manutenção de uma base militar “alheia” aos direitos humanos em Guantánamo) são francamente minimizados. O massacre aos direitos sociais (que também são direitos humanos) na Europa em crise é apresentado como questão de “prudência”. Mas os países das margens do mundo, que não seguem a “cartilha” da política tipicamente burguesa, são sempre e por qualquer pretexto alvo de polêmica e censura.

São, no fim das contas, dois pesos e duas medidas. E a grande mídia brasileira assim revela de qual lado está.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 08/02/2012.]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

[Crítica Social] “País do futuro”


“PAÍS DO FUTURO”

Aquele famoso dito, que todo brasileiro ouve um sem-número de vezes ao longo da vida, segundo o qual o Brasil seria o “país do futuro” parece ter encontrado a sua realização. O eterno futuro já não é eterno, ao menos do (suspeitíssimo) ponto de vista político-eleitoral e midiático. Finalmente podemos marcar a data, reservar a agenda, saber que tal “futuro” é este. É a copa do mundo de 2014.

Todas as providências jamais tomadas, todas as transformações jamais efetivas, tudo que ao longo de décadas permaneceu no limbo do esquecimento e do descaso agora se tornou “prioridade”. É preciso incrementar a segurança pública, equipar e treinar a polícia. É preciso “embelezar” (ou maquiar) as cidades, torná-las mais “agradáveis”, mais “habitáveis”. É preciso construir estradas, estender linhas de metrô, melhorar e modernizar o sistema de transporte público. É preciso ampliar os aeroportos, torná-los adequados à demanda de passageiros. É preciso (e isto parece ser o mais importante) construir estádios, muitos estádios, para abrigar os jogos do campeonato.

É preciso, em suma, tornar o Brasil tudo aquilo que o Brasil nunca foi. É preciso agir, é preciso urgência. Mas nada disto, estranhamente, foi preciso antes. Nunca antes, por nenhum clamor social, exigiu-se esforço semelhante. A população brasileira, por si mesma, não necessita ou não merece, é o que talvez devamos crer. Mas a copa do mundo, sim. Para a copa do mundo, apenas para ela, é preciso vencer obstáculos profundamente arraigados, dar conta de uma série de questões históricas do Brasil. Para a copa do mundo, tudo.

Ora, a população brasileira, de fato, não é a beneficiária de nada disto que se pretende realizar. Nenhuma reforma, nenhuma medida, nenhum investimento se dirige direta e especificamente a uma melhora na qualidade de vida da população. Nenhum dinheiro é “jogado fora” com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais enormes e históricas que caracterizam a realidade brasileira. As reformas, medidas e investimentos – inclusive os gigantescos investimentos públicos – realizados por conta da copa tem por objetivo a multiplicação de alguns – já grandes, porém sempre sedentos – capitais.

As obras e iniciativas relacionadas à copa de 2014 não são obras e iniciativas para a população. Não são obras e iniciativas para construir um Brasil melhor para o seu povo. São obras e iniciativas para construir, para alguns poucos, um Brasil mais lucrativo...

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 01/02/2012.]

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

[Crítica Social] Sobre a “reintegração” do Pinheirinho


SOBRE A “REINTEGRAÇÃO” DO PINHEIRINHO

Um terreno de mais de 1.300.000 m² (área correspondente a mais de 260 campos de futebol), onde habitam milhares de famílias (entre 6.000 e 9.000 pessoas, segundo se estima), cujo “direito de propriedade” é de titularidade de uma empresa falida. Esta é, em suma, a situação do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos – palco, no último domingo, de uma violentíssima operação policial de “reintegração de posse”, cujos desdobramentos prosseguem até agora e, ao que parece, prosseguirão ainda por muito tempo.

As imagens chocantes, esfumaçadas pelo gás de efeito moral, que mostram população sendo expulsa de suas moradias – as únicas que possuem e que, em muitos casos, ocupam já há muitos anos – sob a mira de escopetas e sob a vigilância de helicópteros não são apenas uma cabal demonstração de brutalidade e de insensibilidade social. São, na verdade, exemplos muito visíveis, escancarados mesmo, de algo que não é excepcional ou acidental no mundo capitalista. São exemplos do predomínio do interesse econômico sobre tudo mais, da prioridade da acumulação de capital sobre interesses, necessidades e até mesmo a vida da imensa maior parte dos homens.

Basta olhar ao redor. Há “pinheirinhos” se repetindo a todo instante entre nós, nas mais variadas escalas, dos mais variados modos. A população pobre e excluída das grandes cidades brasileiras é sistematicamente perseguida pela “força pública” precisamente por conta da condição de pobreza e de exclusão. A população negra sofre todo o tipo de discriminação enquanto a elite branca acusa programas sociais de eficácia meramente paliativa como os sistemas de cotas de “privilégios”. Trabalhadores da cidade e do campo que, despojados das condições mais elementares para a sua sobrevivência, exigem teto e terra são tratados como “criminosos” pelas classes sociais que acumulam ou vivem do acúmulo de teto, terra e capital.

No caso específico do bairro de São José dos Campos, a tradução jurídica deste conflito aparece como oposição entre um direito de propriedade formal e as carências mais elementares de toda uma massa de não-proprietários que habita o local. E neste estreito campo de ação que é o direito, não pode se esperar outro resultado senão a defesa absoluta da propriedade. Uma tal defesa absoluta não hesita recorrer, em último caso, à violência aberta para alcançar o seu objetivo, sobretudo se tem como vítima uma população pobre. É precisamente numa situação como esta que o interesse econômico privado expõe, sem qualquer pudor, a sua faceta mais autêntica: esmaga tudo que há pela frente, não titubeia em fazer uso do aparelho “público” de coerção em seu favor e não falha em angariar o apoio quase incondicional da grande mídia para a sua causa: a precaríssima e desesperada tentativa de autodefesa dos moradores é, não por acaso, imediatamente noticiada como agressão “injustificada” quando, na verdade, é apenas reação a uma agressão prévia, abusiva e sem sentido.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 25/01/2012.]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

[Crítica Social] Cracolândia sem fim


CRACOLÂNDIA SEM FIM

Prossegue em São Paulo a operação policial de “limpeza” dos dependentes do “crack”. Após a intervenção na assim chamada “cracolândia”, exaustivamente televisionada, as forças estaduais e municipais agora atingem outras áreas nas quais os dependentes têm buscado abrigo. E os dependentes, sem alternativa, são expulsos para cada vez mais longe.

A natureza da intervenção é rigorosamente a mesma desde o princípio. Nada leva a crer que algo mudará. Ao que parece, tudo está bem de acordo com o “modelo” de intervenção social do governo paulista: o “modelo” do cassetete e das balas de borracha.

Trata-se, antes de tudo, de uma operação policial. Não se trata de um programa social, voltado à assistência e à inclusão dos dependentes. Não se trata de uma iniciativa de saúde pública, voltada especificamente ao tratamento e à prevenção da dependência. Não se trata, em suma, de um tipo – qualquer que seja – de intervenção sequer minimamente adequada ao enfrentamento das causas do problema. Apenas os efeitos mais superficiais são combatidos, e de maneira igualmente superficial: o problema é apenas varrido para debaixo do tapete e o meio escolhido para tanto é o uso da força.

Trata-se, por isso mesmo, de uma limpeza – ou, mais especificamente, de uma limpeza social. Tudo que importa é retirar da vista algo que incomoda: a visão da miséria, da desgraça, do estado assombroso de uma multidão inteira de desesperados. Tudo em nome de um ideal asséptico, higiênico e, no fim das contas, elitista que encara tudo que não se conforma aos seus padrões de brancura e asseio com uma patologia “contagiosa” a ser isolada – ou, se possível, exterminada.

Trata-se, por fim, de uma operação contra os dependentes do “crack”. Não há um efetivo enfrentamento do próprio “crack” ou um combate intensificado contra o tráfico da droga. A ação se dirige imediatamente contra os dependentes, contra o alvo mais frágil, mais acessível. Mais precisamente, contra o alvo mais visível: aquele que pode ser notado por todos, que pode ser filmado para aparecer nas transmissões da TV, que pode gerar o saldo político mais adequado à propaganda eleitoral – “o governo que acabou com a cracolândia”.

Mas a ação dirigida contra os dependentes é também aquela mais claramente dirigida ao fracasso. Filmar agora limpas as áreas anteriormente ocupadas por multidões de dependentes de modo algum implica que os dependentes tenham desaparecido. Dispersar os dependentes para que já não se possa vê-los reunidos de modo algum implica diminuir a intensidade do problema. Usar a força contra os dependentes de modo algum implica atingir a distribuição da droga. A perseguição dos dependentes que deixaram a “cracolândia” pode avançar mais e mais, pode avançar até as fronteiras da cidade, apenas para mostrar, como resultado da completa ineficácia de sua proposta, o óbvio: uma “cracolândia” sem fim.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 18/01/2012.]

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

[Crítica Social] Um estado policial


UM ESTADO POLICIAL

A associação entre “disciplina da fábrica” e aparelho estatal de repressão não é recente. O enquadramento forçado das massas de expropriados à “livre sujeição” ao capital, ao rigor e à disciplina do trabalho assalariado, é, na verdade, uma característica da sociedade burguesa que remonta à acumulação primitiva do capital e à revolução industrial. Ambos – o rigor do trabalho assalariado e a força repressiva estatal – são, no fim das contas, expressões históricas do domínio de uma específica classe social.

Os séculos avançam, a produção industrial se desloca, o capital assume formas mais “fluidas”, os meios de repressão adquirem aspectos ora mais sutis e ora mais violentos, mas permanece o essencial acerca do domínio de classe burguês e do seu braço armado. Não difere fundamentalmente disso o que se passa hoje (séc. XXI, Brasil, estado de São Paulo) entre nós, nos casos mais recentes (e insistentemente noticiados) de violência policial massiva.

Também não é de hoje, na verdade, este tipo de “função social” desempenhada pela polícia paulista. O controle dos grandes contingentes de excluídos da cidade de São Paulo é, desde há muito, um controle policial, o tratamento pobreza como crime. Mas a repressão perpetrada na periferia, longe dos olhos das classes mais favorecidas e das câmeras de TV, nunca foi objeto da atenção merecida. O que tem ocorrido nos últimos meses é, ao que parece, uma perda deste “pudor”, quer por parte da polícia, quer por parte das “autoridades” paulistas e paulistanas.

Não é por acaso que assistimos há alguns meses, praticamente ao vivo no noticiário, a uma verdadeira operação de guerra para a retirada forçada de alguns estudantes que ocupavam um prédio da Universidade de São Paulo. E não é por acaso que se tem assistido, desde então, dentro do campus da USP, a vários episódios de violência policial contra estudantes: como, por exemplo, um vídeo divulgado há apenas alguns dias em que um policial militar aponta uma arma de fogo contra um estudante para exigir que este lhe mostrasse a carteirinha da universidade.

Mais ainda, devemos considerar sob este prisma também a ação policial que nas últimas semanas tem se incumbido de “limpar” a área do centro da cidade conhecida como “cracolândia”. Para os dependentes do “crack”, o efeito desta medida é absolutamente nenhum. O seu único resultado é espalhar um grave problema social e de saúde pública. Mas não se trata realmente o problema mesmo como social ou como de saúde pública, não se busca efetivamente nenhuma solução, o poder público não intervém de maneira sequer minimamente adequada. A sua única resposta – tacanha e sem sentido – é a da violência aberta dirigida contra a margem da sociedade. Trata-se, no fundo, de pura medida de higienismo social.

São Paulo revela cada vez mais claramente o seu “talento” para constituir-se como puro estado policial.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 11/01/2012.]

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

[Crítica Social] Moralização e transformação social


MORALIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Um pensamento do tipo “o mundo está cheio de mazelas porque as pessoas são moralmente más” conduz imediatamente a uma solução do tipo “a salvação reside numa mudança moral”. Mas idéias deste gênero, embora muito recorrentes, não são exatamente as mais adequadas a uma perspectiva efetivamente crítica. Elas indicam, é certo, algum inconformismo quanto à ordem estabelecida – partem, porém, de premissas equivocadas e, por conta disso, apostam em soluções inócuas.

A moralização de questões sociais – desigualdade, pobreza, exclusão, exploração, violência urbana etc. – desloca tais questões de seu terreno próprio, isto é, retira o caráter propriamente social que lhes é inerente e, assim, torna-se incapaz de enfrentar as suas reais dimensões. A moralização individualiza e transpõe para a vontade e para a consciência aquilo que, na verdade, não depende nem da vontade e nem da consciência.

É na própria estrutura social concreta em que vivemos, nesta estrutura social desigual e excludente, que devemos buscar as causas da desigualdade e da exclusão. É, portanto, a estrutura social, determinada por relações de produção muito específicas, que deve ser transformada para superar, por relações sociais novas, a desigualdade, a exclusão e todas as demais distorções inerentes à sociedade superada.

Quero dizer, a “solução” não reside numa nova moral, mas numa nova sociedade. A “solução” não reside na transformação da moral, dos valores ou da consciência dos indivíduos, mas na ação política, coletiva e organizada, e no processo de transformação efetiva das relações sociais, mais especificamente das relações de produção.

Não se trata, portanto, de perguntar quais as conseqüências das características morais encaradas como “más” para a sociedade, mas antes qual a sociedade que produz, nos indivíduos, tais características morais. Se, nesse sentido, o egoísmo, a falta de solidariedade, o desrespeito à dignidade do próximo etc. são “falhas morais” recorrentes no homem do nosso tempo, é preciso verificar, em primeiro lugar, qual a forma de sociedade que induz tais “falhas”. E certamente não é difícil perceber a sua vinculação a uma sociedade que glorifica o interesse privado e a competição e que, ao mesmo, está edificada sobre um modo de produção que se fundamenta na exploração do trabalho e na desigualdade de classe.

A mudança moral, a despeito de suas eventuais “boas intenções”, arrisca permanentemente perder-se num moralismo sem sentido. Um novo mundo não pode ser criado pura e simplesmente por uma “boa vontade”. Um novo mundo, verdadeiramente novo, só pode nascer da luta.

[Publicações: O REGIONAL (Catanduva-SP), 23/11/2011.]